Entrementes

#87 | Ansiedade: Aspectos menos conhecidos

Baioque Conteúdo Season 8 Episode 3

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Maltratamos nossos ouvintes ansiosos demorando 87 episódios para falar justamente dela: a ansiedade.

A ansiedade é um mecanismo natural que nos prepara para situações tensas e ameaçadoras, mas pode estar passando do ponto se começa a provocar fobias, evitações, crises, preocupações que atrapalham a vida.

Apesar de ocorrer muito no Brasil, dá um alívio saber: o tratamento funciona muito bem. Vale a pena procurar um psiquiatra se estiver sentindo sua vida prejudicada pela ansiedade.

Neste episódio, falamos sobre quem tem mais risco de desenvolver, aspectos menos conhecidos da ansiedade, formas não recomendadas para tentar relaxar e mais. Conversamos com o dr. Márcio Bernik, médico psiquiatra e coordenador do programa de ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

Aparte: Felipe José Santaella

Produção: Baioque Conteúdo
Roteiro e apresentação: Luiz Fujita Jr
Coordenação geral: Tainã Damião
Redes: Tainah Medeiros
Edição: Amanda Hatzyrah
Trilha sonora: Paulo Garfunkel
Instagram: @entrementespodcast
YouTube: @entrementespodcast

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Olá, sejam bem-vindos ao Entrementes, o nosso podcast de saúde mental contra o estigma. Eu sou o Luiz Fujita e finalmente nós vamos ter um episódio sobre esse tema que é tão presente na vida das pessoas, seja porque elas têm ansiedade ou porque elas leem sobre isso, né, tá em todo lugar. Como a gente tem um público bastante interessado já em saúde mental, inclusive com muitos estudantes e profissionais da área, eu planejei uma conversa aqui tentando aproveitar melhor o nosso tempo e passando um pouco batido em coisas muito muito simples ou muito básicas que a gente pode encontrar na internet, ou que pode ser que vocês mesmos já saibam, né? Ansiedade é um assunto bastante recorrente mesmo em mídias não especializadas, então eu vou presumir que vocês, entrementers, já sabem um basicão e a gente pode explorar e um pouco além. E justamente, aliás, falar do que é muito dito por aí e na verdade não é bem assim, ou pode até mesmo estar errado, né? Quem vai ajudar a gente hoje é o Dr. Márcio Bernic, que eu conheci na época em que eu trabalhava com o Dr. Drauzio Varella, né? A gente convidou o Dr. Márcio para um quadro que eu criei lá, que era tal tema em X perguntas. E ele falou justamente sobre ansiedade, né? O Dr. Márcio Bernik é médico-psiquiatra e coordenador do programa de ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Obrigado, Dr. Márcio. A gente sabe como foi difícil a gente conseguir esse horário, várias idas e vindas, mas conseguimos estar aqui. Obrigado, Luiz, pelo convite. Fico feliz em poder ajudar e tirar algumas dúvidas importantes. Dr. Márcio, vou falar então, começar justamente com o que você mesmo trouxe nessa breve conversa que a gente teve antes de começar a gravar, né? Como eu falei na introdução, ansiedade é muito familiar mesmo para quem é leigo. O Brasil, né, tem muito isso porque o próprio país é tido como um país que tem muitas pessoas ansiosas, né? Mas então eu queria saber de você, né, o que que te chama atenção dessas coisas que saem muito ou são ideias que agora caíram até em senso comum E que tem algum ponto que mereça ser pontuado, que não é bem assim ou talvez esteja até equivocado, né? A primeira coisa importante é que ansiedade é um estado emocional normal. Então, a gente dizer que alguém não tem ansiedade seria como o povo fala que aquela criança que não vinga, que vai atravessar a rua sem olhar, morre atropelado, acabou. Então, todos os seres humanos, eles têm como sua herança como mamíferos, como animais, mecanismos cerebrais de defesa. E esses mecanismos cerebrais de defesa no ser humano são muito mais ligados a uma ansiedade antecipatória, planejada, no sentido de evitar se expor a situações de risco. Porque ao contrário de rinocerontes, outros animais, a gente não tem uma capa dura com uma pele de 10 centímetros que resiste a mordida de leão. Não temos grandes garras, nós somos animais relativamente frágeis. E o que a gente tem que realmente diferencia chama-se lobo pré-frontal, que tem a ver com planejamento de comportamentos, e entre os comportamentos, aqueles de esquiva de risco, tá? Então não existe ninguém que não tenha ansiedade. Eu diria até que é uma marca do ser humano. Então é muito quando a gente fala que que as pessoas têm ansiedade, é importante saber que muito disso não é doença, é normal. Então essas pessoas não precisam se sentir culpadas por ter ansiedade, porque como eu falei no começo, é uma emoção humana normal. E a gente tem que ver que a pessoa tem uma doença. Eu brinco

que são os 3 Ds:

distress, disability, disadvantage. Então distress, sofrimento excessivo, né? Pessoa sofre demais. Exemplo, sei lá, um paciente tendo uma crise de pânico, é muito sofrimento. Disability, disfunção numa ampla gama de atividades. Então, um paciente que teve pânico, agora tem agorafobia, tentando entrar no metrô, ver um cinema, no supermercado, não vai conseguir, ele fica incapacitado. E o disadvantage, que é a desvantagem, é um pouquinho mais sutil, porque eu imagino, por exemplo, um fóbico social, um cara que trabalha bem, produtivo, legal, não vai ser presidente da empresa, não vai ser professor titular na faculdade, porque as questões das habilidades interpessoais prejudicadas, ansiedade social aumentada, vão levar a um arrasto grande na carreira da pessoa. Então, às vezes, mesmo que a pessoa não tenha grande sofrimento, você vê que ela está perdendo o espaço competitivo com os outros por um transtorno de ansiedade. Então, o que a gente trata, é importante, não é ansiedade, que é transtorno de ansiedade. E transtorno de ansiedade, grosso modo, é aquela ansiedade que leva a sofrimento excessivo, prejuízo funcional. Perfeito. A gente falou então, Dr. Márcio, mas o que é essa ansiedade, que é um sentimento normal, né, inclusive útil, né, para nossa sobrevivência? E essa diferença em relação ao— beleza, que começou a ser algo que talvez mereça uma atenção profissional para a gente tratar, né? Dessas coisas que a gente costuma saber como leigo, né, sobre ansiedade, tem algo que você acha que não é falado? Tipo, é uma coisa que é muito frequente ou muito característico de quadros de ansiedade, mas é pouco conhecido? Tem algo assim? Acho que tem uma outra coisa que você falou também antes que eu esqueci de comentar até, que essas questões dos mitos correntes, né? E um desses que eu acho importante é dizer que o Brasil é uma pessoa, país com mais ansiedade no mundo, e E de fato você vê que é um país que nos estudos populacionais mostra que você tem mais transtornos de ansiedade que a média dos outros países do mundo. Mas isso é mais porque é um país com boas estatísticas, você tem um bom censo, você tem um— junto com o censo foram feitos estudos como o Megacity ou estudo de área de captações, que foi esses estudos que mostraram esses dados, que talvez em outros países mais pobres e de renda classe média você não tenha. E aí nós temos um paradoxo, que a prevalência dos transtornos de ansiedade, de um modo geral, em países mais ricos, ela é maior, tá? E eu também acho que é porque as estatísticas são, as estatísticas são melhores. Então o que eu diria é que o grau de ansiedade, ela é mais ou menos constante ao longo da história, não tem explodido. Mas falar, mas hoje em dia, problema de trânsito, violência, eu falei, calma, Até 1950, se seu filho tinha uma pneumonia simples, ele tinha 50% de chance de sobrevivência. As pessoas pegavam poliomielite e ficavam paralisadas. Quer dizer, e se você pega a sociedade como um todo, tinha guerras, e foi guerra do Vietnã, da Coreia, Segunda Guerra Mundial. Quer dizer, você tinha até o grau, dizem que talvez a humanidade nunca foi tão pouco violenta como ela é hoje em dia, né? Claro, São Paulo tornou-se uma cidade muito maior, onde eu vivo. Quando eu era pequeno não existia nada de você ser roubado na rua, também porque ninguém sai com celular, mas você podia andar de bicicleta por São Paulo todo e tudo bem. Então São Paulo tornou-se uma cidade mais complexa, mas tinha outras preocupações, tinha menos emprego, tinha menos renda, tinha menos acesso à saúde. Recentemente eu vejo funcionários, amigos ou pessoas que eu conheço assim fazendo procedimentos de alta complexidade no SUS. Não sei se isso existia nos anos 50, se alguém conseguia fazer um transplante de medula para uma leucemia no serviço público de saúde. Então tem um balanço de coisas boas ou ruins, mas o que eu diria assim, a tendência a ter mais ansiedade que a média da população é uma coisa muito determinada pela sua genética, e por experiências precoces de vida também. É um mix de genética e ambiente, tá? Algumas doenças, tipo pânico, pânico é muito genético. 70% da chance de ocorrência é o fato de alguém na sua família ter. Já outras, ansiedade generalizada, preocupações excessivas, muito ambiental, tem muito a ver com suas experiências de vida, responsabilidades, e coisas que vão se acumulando conforme você vai se tornando adulto. Mas de um modo geral, a gente pode dizer que quem vai ter é quem tem predisposição biológica para ter e teve o azar de ter eventos de vida estressantes ao longo de infância, às vezes primeira infância, que aumentam essa vulnerabilidade. Que tipos de experiências que a gente pode citar mais assim, Dr. Márcio, como vulnerabilizantes ou que aumentam o risco de ter os clássicos assim experiências estressantes muito graves. Então crianças vítimas de abuso, coisas assim fora do contexto normal, vivencial normal. Claramente a gente sabe que muda a biologia da pessoa para a vida. Então não só vulnerabiliza para estresse pós-traumático, mas vai vulnerabilizar para pânico, ansiedade, infecções e uma série de coisas, até por mecanismos de mudança dos seus genes após o nascimento por um mecanismo chamado epigenético. Então o estresse muda os genes. Então uma coisa que vai te vulnerabilizar para a vida. Mas tirando esses casos extremos, a gente sabe, por exemplo, ambiente de desenvolvimento precoce, não ter tido estimulação suficiente na infância, sensação de ausência de figura parental de apoio. Você tem um monte de estressores abaixo do limiar traumático que também eu acho que vulnerabiliza. O exemplo que eu dou, esse é muito bom. Por exemplo, se você é filho de pais com fobias sociais, fobia social, tá? É uma tempestade perfeita, porque ao mesmo tempo você herda os genes do seu pai e da sua mãe. Como eles têm fobia social, eles não vão ter muitos amigos, então você não vai conviver com um grupo social grande quando criança e não vai ter oportunidade de desenvolver habilidades sociais quando criança com os filhos dos amigos dos seus pais. Porque seus pais não têm amigos, eles são isolados. Então você tem essa dificuldade, pessoal. E aí você, quando for mais velho um pouquinho, que você tá aprendendo habilidade social com seus pais, negociar uma comida, o preço de um prato na feira, de negociar o preço da mandioquinha, ou de reclamar de uma compra que não ficou legal, de uma camisa que você ganhou e que tem que trocar na loja, e você vai ver que seus pais sofrem com isso. Você não tem com quem aprender também habilidades sociais finas melhores. Então essa tempestade perfeita, genética, ambiente precoce, modelo dos pais, tudo de certa forma conspirando para que você tenha um problema. Agora, sem querer parecer muito dramático também, eu estou falando de patologias ou de doenças fáceis de tratar. Uma das coisas que eu amo de trabalhar com transtornos de ansiedade é que o índice de remissão dessas doenças é 90%, 96% em medicina, é muito bom. Às vezes demora um pouquinho mais, como fobia social é mais difícil. Pânico é facílimo de tratar. Olha que interessante. Então assim, eu estou dizendo assim, o fato de você ter um transtorno de ansiedade não é uma, como diria, uma sentença de perpétua que você vai ter que sofrer com aquilo para o resto da vida. Existem outros problemas em psiquiatria muito mais complicados de serem tratados. Doutor Márcio, e quanto a falar um pouquinho justamente da pessoa com ansiedade, né? Eu acho que essa palavra ou o termo de uma pessoa ansiosa traz já uma imagem que é, acho que a caricatura assim, né, da pessoa ansiosa, que seria alguém meio agitado, né? Uma coisa um pouco assim desconcentrada, uma cabeça cheia, né? Essa é uma imagem correta? Existem outras? Que tipos que a gente tem de pessoas, né, de pacientes com ansiedade diagnosticada mesmo? Acho que existe um espectro, né, que as pessoas com muita ansiedade, você tem características claras, você tem manifestação física, coração acelerado, uma respiração um pouco mais ofegante, pele um pouco mais pálida por causa da adrenalina que contrai os vasos. Meus amigos no hospital sempre brincam que o ambulatório é o ambulatório da mão gelada, porque todos os pacientes têm a mão um pouco mais gelada, que estão um pouco assustados, né. É cruel, mas é verdade, né? O fato. Agora, entre você ser muito agitado, que a gente chama inquietude física e mental, é um bom sintoma de ansiedade, porque você tá sempre vislumbrando desfechos ruins para as coisas, imaginando que coisas ruins vão acontecer, e isso te deixa no estado de sobressalto, de alerta, né? Fato, verdade, essas pessoas são ansiosas, tá? Do jeito que você descreveu. Tem um outro extremo também, que às vezes a pessoa tá tão assustada com as coisas que podem acontecer que ela pode ficar parada, como se paralisada. E se você pensar até em termos animais, se você colocar um animal em situação de alto risco, ele pode ficar desesperado e fugir, ou ele pode desmaiar e ficar paralisado. O congelamento é uma reação ansiosa também. Dentro do espectro das cações, tá? Tem umas imagens na internet de cabras assim que acontece isso, né? Paralisa, toma um susto, ela para e cai assim, porque fica durinha. E é muito interessante que você fala assim, pô, que mecanismo de defesa idiota, né, que você congela. E aí você vê às vezes um puma ou um chitá correndo atrás daqueles gazelas, né? E todos os gazelas correndo, chitá corre atrás das que estão correndo. Uma que desmaia, ele esquece. Então todos os mecanismos de defesa de certa forma têm um pouco a ver. Bom, tem, sei lá, centenas de milhares, ou talvez de centenas de milhares de anos de treinamento desses mecanismos cerebrais de enfrentamento de risco, né? Legal, Dr. Márcio. A gente, por enquanto, pelo que a gente falou de ansiedade, Ela parece estar muito conectada a uma causa, né? As pessoas conhecem muito, falam muito de gatilho, né?"Ah, isso me dá gatilho", ligando à ansiedade, né? Mas é possível que a pessoa não saiba, às vezes, causas da sua própria ansiedade? Talvez algumas, mas às vezes não. Às vezes ela começa a se sentir com esses sintomas que ela até, talvez por ser um paciente experiente, sabe, né, sobre si mesmo e sabe que aquilo é um momento de ansiedade, mas tem nada que aconteça que me deu isso, sabe? Você sabe que quando você faz um dos bons tratamentos para transtornos de ansiedade é a terapia cognitiva comportamental? Num dos pilares é a chamada análise do comportamento, em que você trabalha com uma coisa chamada ABC. A de antecedentes, B de B, behavior, comportamento, e C, de consequências. Então é muito importante você, se você quer descrever, por exemplo, comportamento de esquiva fóbica ou comportamento de ficar agitado, desorientado, sem saber o que fazer, tentar descrever os gatilhos que antecedem esse comportamento e as consequências que de certa forma reforçam esse comportamento e mantêm. Tá? Então, muitas vezes os comportamentos são mantidos por comportamentos dos familiares, das pessoas próximas, ou por comportamentos naturais do ambiente que reforçam esse comportamento ou não reforçam. E os gatilhos muitas vezes são perceptíveis, são pensamentos, imagens, às vezes situações ambientais, às vezes sensações físicas. Mas eu acho que muitas vezes a pessoa está muito agitada e ela não consegue perceber os gatilhos. Mas é importante você descrever esses gatilhos até para aprender, a pessoa aprender a lidar com eles, controlar um pouco esses estímulos que estão demais. Para alguns gatilhos que a pessoa não deveria se esquivar, deveria de certa forma enfrentar, aprender a fazer um enfrentamento gradual. Por exemplo, falar em público, apresentar em reuniões resultados, dar aulas, não tem como se esquivar disso. Você tem que ter sim um enfrentamento suscetível para aprender estratégias e conseguir fazer. Agora, existem algumas patologias, eu acho que a única é o transtorno de pânico, em que a ansiedade vem do azul do céu. Os americanos têm um termo bom para isso, que o pânico é out of the blue, quer dizer, vem do azul do céu. Então, muitas vezes você não tem gatilhos, ou gatilho irrelevante, que nem o paciente que eu atendi ontem, que eu lembro que tava tendo uma pequena discussão com a mãe sobre uma bolsa que quem tinha comprado, qual, se a mãe ou a filha, uma coisa, e ela começou a passar muito mal. Quer dizer, era um pequeno conflito bobo com a mãe que as duas sempre se resolveram, foi um gatilho porque ela tava numa fase de muita vulnerabilidade para crise de pânico, tava sem remédio já há 2 anos. E, Dr. Márcio, a gente falou de pânico algumas vezes, né? Isso é interessante dentro de um episódio sobre ansiedade, porque eu imagino que então as coisas estejam bastante relacionadas, né? E o pânico, eu acho que ele é muito conhecido pelas suas crises, né? Só que a gente também fala, né, às vezes crise de ansiedade, a própria pessoa

falar:

'Tive uma crise de ansiedade, não de pânico', né? Tem uma diferenciação entre as duas? Vocês trabalham com alguma coisa assim? Eu acho que crise de ansiedade, se você usar o termo crise, ela é sinônimo de pânico, que o pânico nada mais é do que uma crise de ansiedade em que 4 de 13 sintomas

característicos:

falta de ar, taquicardia, tontura, náusea, vômitos, dor de barriga, tremores, tonturas, uma série de sintomas característicos de ansiedade, sensação de que vai morrer, de que vai ficar louco, Surgem de uma maneira rápida, em menos de 10 minutos. É um pico, tá? Então, uma crise de ansiedade que surge desse jeito é uma crise de pânico. Então, o que é uma crise de pânico? É uma crise de ansiedade. É claro que tem pessoas que não têm pânico e têm ondas de ansiedade. Então, eu estou bem trabalhando e eu começo a me preocupar com o prazo que eu tenho que entregar até o final do dia, e aí vai me dando dor no estômago, tontura, o coração acelera, mas é mais uma onda. Tá? Agora, uma crise de ansiedade geralmente é uma crise de pânico. E coisa importante, que toda ansiedade ela é flutuante, tá? Eu brinco que as pessoas nunca são iguais. A ansiedade flutua ao longo das horas do dia, tem dias, horas boas, horas ruins, ao longo dos dias da semana, ao longo das semanas do mês, ao longo dos meses do ano e ao longo dos anos na vida da pessoa. Então a pessoa pode ficar alguns anos bem, aí ela se forma. Eu tenho que procurar, tenho que arrumar um emprego, tenho que agora me sustentar. Descompensa. Arrumo um emprego, tá bem e tal, vou casar. Nossa, é responsabilidade. Descompensa. Aí tá bem, promoção, vai ter uma promoção, eu sou um candidato forte. Nossa, que responsabilidade que querem de mim. Não obrigatoriamente uma coisa negativa, né, mas essas mudanças de vida que te tiram um pouquinho da zona de conforto E cai tudo, fica ruim de novo e tal. E nem sempre são interessantes, nem sempre são coisas que são negativas. Ter um filho, ser promovido, deveria te deixar feliz. Te deixa feliz e preocupado. Sim, claro. É isso que todo mundo reconhece, que, mas não, acho que é bastante natural passar por essas situações ao longo da vida, né? Bastante natural. Por isso que eu falo que é patológico só quando é num nível que te faz mal. Que você não consegue trabalhar porque você fica pensando o tempo todo antecipando que não vai dar certo, você fica irritado. Todas essas situações que eu falei, qualquer pessoa normal fica um pouco ansiosa. E, Dr. Márcio, retomando uma coisa que você falou logo no começo da entrevista, né, que foi até para tranquilizar as pessoas, que tem um sucesso alto, né? Muitas pessoas que vão para tratamento conseguem, você falou mais de 90%, acho, né? Ou 90% de remissão, né? A gente vai falar um pouquinho, né, na parte final da conversa sobre tratamento, mas adiantando um pouco, né, isso que o senhor chama de remissão, é isso? A pessoa fica a maior parte do tempo sem ter e talvez só em momentos que a gente, como a gente falou agora, é esperado até que retorne, ou não? Pode ser que a pessoa tenha mais frequentemente, mas ainda assim se considera que ela está em remissão, né? Depende um pouco da patologia, vamos dizer assim. Fobias simples, que é fobia de baratas, fobia de avião, fobia de lugares fechados, fobia de alimentos muito sólidos, fobia de levar tombo. A maior parte dos quadros fóbicos, quando você adquire uma remissão, é remissão. A pessoa vai ficar curada, tá? Raros momentos de recaída, geralmente para a mesma fobia. Quando tem dores, fobia social, muito sofrimento, doença grave, pessoas sofrem adolescência muito isolada, muito difícil, elas demoram para melhorar, sim, demoram anos, não semanas, tá? Uma vez boa, como você começa a se expor, uma vez que você tá bem, você pega um emprego, aí você tem colegas de trabalho, Aí você vai na academia, o pessoal te convida para tomar um café. Aí já que te convidaram para tomar um café, pergunta se você não quer jantar, comer uma pizza numa sexta à noite. Então, conforme você melhora da fobia social, a vida começa a te expor a essas situações sociais. Então, o cara melhorou, ele raramente recidiva. Claro que do cara que foi um fóbico social nunca vai pegar um emprego do Jô Soares ou do Faustão de host de Coisa desgraçada, né? Mas a vida é normal, tá? Vida normal. Talvez no fundo ele saiba que ele é um pouco fóbico social. Às vezes tem o que eles brincam, que é pilha social fraca, que eles vão em festa, tudo, mas cansa mais que os outros, né? Mas vida normal, tá? Ansiedade generalizada, que é aquela patologia que o cara é tenso, preocupado desde o ginásio com a nota da prova, com medo de afundar o time de futebol. De a menina de lá fazer um balé, cair, ser uma vergonha para toda a equipe por culpa dela. Então a pessoa que se sente preocupada, preocupada, ela melhora muito. Mas é muito difícil virar uma pessoa desencanada. Porque tem aquela estrutura quase de personalidade muito basal dela, muito cristalizada, que ela nunca vai ser uma pessoa cuca fresca, tá? Mas tá bem, né? O pânico e agorafobia, essa é uma patologia um pouco interessante. O pânico melhora rápido e bem. Agorafobia, que é aquelas esquivas de medo de ter pânico, ônibus, trem, metrô, cinema cheio, show, aí vai, tudo que tem a ver com dificuldade de sair, de se sentir preso. Melhora muito o pânico. Agorafobia melhora menos, mais devagar.

Mas o pânico tem uma característica:

a pessoa fica boa, aí você sempre tira o remédio depois de um ano, ou a terapia também termina, tende a recidivar. 5, 3, 5 anos, 7 anos, a pessoa começa a ter umas crises de novo. Aí você dá um remédio de novo, fica bom de novo. Não é recidiva. É, eu brinco mais fácil, diz que olha, calma, não é recidiva de câncer que você tá ferrado, uma recidiva de uma patologia que melhora com remedinho oral, um comprimidinho, um pouco de terapia. É bom saber, né? Porque o pânico acho que é uma coisa tão assustadora, né? Até quem não

tem acho que fala:

nossa, parece uma coisa horrível, né? E é dos mais fáceis de tratar. Fobia social, que eu lhe falei, fobia social demora mais, porque o grau de a pessoa criar coragem para se expor, ter um pouco de sucesso na exposição, isso ajudar a reforçar e de novo é um pouco mais demorado. Mas uma vez que melhora, não recai. Interessante. E esse de ansiedade generalizada era o que mais eu queria saber, porque acho que é um que muitas vezes as pessoas consideram que têm, mesmo sem ter um diagnóstico formal, porque são assim, são um pouco preocupadas demais, né? É o mais comum. Se você pensar assim, o que mais você vai ver, mais, nem sei se é mais comum epidemiologicamente, mas na clínica de quem trabalha com ansiedade, mais comum é ansiedade generalizada. São pessoas muitas vezes até valorizadas pela sociedade, porque elas são responsáveis, elas chegam cedo, elas ficam último a sair do trabalho, os professores acham um bom aluno porque sempre estuda para prova, com um grau de desgaste pessoal enorme, tá? Porque não é feito de boa. Não é porque você

é— e é interessante, porque você tem dois caras que vão bem na prova:

o cara que quer tirar 10, tudo bem, consegue tirar 8, e o cara que só não quer ser reprovado, e ele estuda tanto para tirar 8. Esse segundo é o paciente com ansiedade generalizada. E então é sempre tudo com certo esforço, um certo desgaste, né? Agora então, entrando até na parte de tratamento, já que falamos, né, citamos remédios inclusive. Doutor Márcio, como é que é atualmente, né? O senhor deu uma esperança boa, eu acho, para as pessoas ansiosas, né? Aparentemente os tratamentos hoje são, tendem a ser bem-sucedidos, né? Como é que eles são atualmente? Isso é muito importante. Então assim, se eu pensar dentro da minha área da psiquiatria, ou pensar mesmo dentro da medicina em geral, transtornos de ansiedade são patologias de boa chance de remissão. Claro que quando você pega uma clínica terciarizada, terciária, do Hospital das Clínicas, que você vai acumulando aqueles que não melhoram, os residentes às vezes têm uma ideia de que não é uma coisa tão fácil

assim. Eu falei:

mas é que de 100 pacientes novos que entram no ano, 95 vão embora, ficam ótimos, e vão ficando 5 que não melhoraram. Então tem essa ideia negativa. Mas todas as evidências hoje apontam que o melhor tratamento para transtornos de ansiedade é uma associação desde o começo de medicamento e psicoterapia comportamental cognitiva. As evidências não são para qualquer psicoterapia, são para essas técnicas ligadas à modificação de comportamento. Ou modificação de padrões de pensamento, que é a terapia cognitiva, que tende a ter uma eficácia comprovada cientificamente, tá? Claro, até como eu sou psiquiatra, eu até imagino que o tamanho do efeito, que assim, a magnitude e rapidez da melhora com remédio é maior, até porque a psicoterapia você precisa ir semanalmente num profissional especializado, requer uma questão de custo e investimento maior. De tempo, mas se puder fazer sempre é bom. E hoje em dia tem-se estudado muito formas de psicoterapia inovadoras, assíncronas, que a gente chama. Então tem vídeos gravados pelo terapeuta, a pessoa acessa nos momentos de dúvida. Então você tem um contato presencial, mas vários contatos com esses vídeos assíncronos. Você tem várias formas de psicoterapia mais inovadoras, mesmo atendimento online que facilita tanto para o terapeuta, mais para o paciente, né? Porque o terapeuta vai ter que estar em algum lugar, pode ser o escritório dele, só que o paciente não precisa se movimentar até lá toda vez. Questão de custo está sendo estudada, mas psicoterapia sempre implica em maior esforço. E os medicamentos, tinha muita muito mito também, que dá dependência, que pode ter morte por overdose. Isso vem de uns remédios dos anos 50, né, Elvis Presley, Marilyn Monroe, esse pessoal que usava barbitúrico, né, que não se usa provavelmente desde 1963, quando surgiu o diazepam. Mas os remédios hoje em dia são muito seguros, quer dizer, risco de envenenamento, de morte, praticamente zero. Risco de dependência, assim, da pessoa ficar muito viciada no remédio, é muito maior para os remédios de insônia, esses Z-drugs.

É só um problema do Brasil:

Zopiclona, Zopidem, Xalipro. Então esses medicamentos são os Z-drugs, são um pouquinho mais complicados porque eles têm uma meia-vida muito curta e todo remédio com meia-vida muito curta, você percebe o efeito. Isso te dá um reforçamento do uso, até como diriam os usuários de droga, da back to win. Você sente, então você toma um desses remédios para dormir, você sente um uau, me derrubou. E essa sensação que é um pouco viciante, tá? Os remédios que a gente usa para ansiedade são todos de longa duração, são antidepressivos, Então o pessoal brinca que a floxetina era o remédio da felicidade. Tinha esse papo antes. Se eu quiser ficar rico vendendo floxetina embalada, eu vou, tô ferrado, cada um tostão. Tem uma dúvida que eu acho que é comum, Dr. Márcio, queria que o senhor explicasse, né? Essa coisa de usar antidepressivo num tratamento de ansiedade, né? Porque acho que parece um pouco um contrassenso, porque acho que Depressão, você tem que levar a pessoa para cima, né? Você vai usar na ansiedade. Então, essa é uma pergunta importantíssima porque tem a ver como que os remédios são, como é que a nomenclatura deles, né? Então você tem alguns remédios que são dados o nome pela estrutura química. Então, por exemplo, tricíclicos, né? Só que os tricíclicos são chamados de antidepressivos tricíclicos. Porque eles são, primeiramente eles foram usados para o tratamento da depressão em 1960 e pouco, na verdade. Mas são ótimos remédios para enxaqueca, para dor crônica, para criança que faz xixi na cama. Quer dizer, então você tem um monte de usos do remédio que eles são, que fica com o nome de antidepressivo. Mas o que na verdade eles fazem são remédios complexos que modulam serotonina e noradrenalina no cérebro. Isso tem um monte de efeitos, né? O contrário, por exemplo, tinha um remédio que é muito usado em ansiedade. Por um tempo a gente sempre usa porque tem uma ação rápida, mesmo que a pessoa não for tomar ao longo prazo. O remédio interessante foi o clonazepam, tá? Nos mais, talvez o remédio mais vendido no Brasil. Ele vinha escrito, ele estava classificado na classificação do governo como anticonvulsivante. E foi uma briga para classe médica para tirar o nome anticonvulsivante do remédio. Então aí, que tinha

de paciente chorando, ligando para mim:

puxa, doutor, se eu tiver em epilepsia, o senhor podia ter me contado, né? E aí você vê assim, então a questão do nome para classe que ele é usado. Então vamos pensar, o remédio mais usado no planeta hoje para ansiedade e depressão, que é o Step One, que é a sertralina, remédio que tem qualquer posto saúde, qualquer lugar, tal. O que esse remédio faz? Ele é um inibidor seletivo de recaptura de serotonina. Esse é o mecanismo de ação dele. Ele aumenta a biodisponibilidade de serotonina no cérebro, tá, isso, e no corpo todo. Isso leva alguns efeitos, leva aumento da motilidade gástrica, aumento da motilidade intestinal, o que faz ter um pouquinho de náusea e diarreia no começo do tratamento. Esse aumento de serotonina no cérebro, bloqueia um pouquinho o receptor tipo 2C de serotonina, então te deixa dar um pouco de queda de libido. Graças a Deus isso não é importante, depois reverte. Mas o aumento da serotonina em outras estruturas do cérebro aumenta uma coisa que o pessoal chama de brain stress endurance systems, sistemas de enfrentamento de estresse. Então eles causam um distanciamento maior. Então imagina que aqui tá a fonte de estresse, e aqui está você. Eles causam descolamento entre a fonte de estresse e a resposta emocional. E esse efeito é útil tanto em ansiedade quanto em depressão. Sim, claro. Especialmente aquele tipo de depressão que não é aquele cara largado, sem se levantar, aquele cara que fica agitado, agoniado, que são as depressões mais agitadas, ansiosas. Então você vê que a questão do nome antidepressivos é porque eles foram inicialmente testados em depressão. Tem várias propostas que vêm desde os anos 90 da gente mudar a nomenclatura, chamar os remédios só pelo princípio de ação deles e tal, mas medicina é muito conservadora, então um cara fala para mudar, todo mundo continua usando o que tinha antes, porque o nome tá aí e funciona. Ou por exemplo, se o seu cachorro atende pelo nome de Luke, você não vai chamar ele de Thomas, vai continuar chamando de Luke. Então é mais tradição. Mas é importante, sim, um remédio não é antidepressivo ou ansiolítico, tá? Ele tem um mecanismo de ação dele, você usa para o que você precisar usar. É o exemplo que eu falei. Ah, e tem esse pensamento até médicos têm. Nos anos 60 se falava de que crianças faziam xixi na cama Erick valente depressivo, porque melhorava com imipramina, que é um antidepressivo. Sim, mas é ação da imipramina no receptor chamado muscarínico, no esfíncter da uretra da criança, que aumenta a pressão lá embaixo na bexiga. Não tem nada a ver com o cérebro, entendeu? Então você vê como esse pensamento circular, todo mundo tem, então até os médicos achavam isso, falavam. Então isso é um erro lógico que a gente tem que tentar evitar. Perfeito. Doutor Márcio, pontuou alguns efeitos assim, né, passando pela explicação dos medicamentos, dos efeitos adversos, né, o efeito colaterais, não sei qual seria o nome correto. Tem alguns que são maior motivo de queixa ou que vocês costumam se preocupar um pouco mais? Boa pergunta também. Os medicamentos mais antigos, até começo da década de 90, quando surgiram os inibidores seletivos recaptura de serotonina, eram muitos os tricíclicos, ou só tricíclicos. Esses remédios mexiam muito em receptor de histamina, davam muito sono, sonolência, mexiam em fome, e antihistamínico dá fome, mexiam nesses receptores muscarínicos que eu te falei, então prendia o intestino, dificultava urinar. Para um homem de 65 anos com problema de próstata era complicado. Mas, e principalmente, eles tinham um risco de causar arritmias quando em sobredosagem. Então, grande problema dos cíclicos, é que se você pegasse quantidade de remédio de um mês de uso, que a pessoa tomasse uma vez, ela podia morrer, tá? Isso acabou nos anos 90 com surgimento desses inibidores seletivos. Eles não dão mais tanto boca seca, não prende o intestino, não engordam mais tanto, não dão os mesmos problemas sexuais de queda de desejo, anorgasmia, inibição de orgasmo, mas eles têm um pouquinho. E quais são os efeitos colaterais que mais incomodam as pessoas? De longa marcha, ganhar peso. Um outro remédio dá mais fome que o outro. Então, se é uma pessoa muito magrinha, de repente vai com remédio mais eficaz. Se é uma pessoa que já tá brigando com peso, você escolhe aquele remédio que não vai dar nenhum ganho de peso, mesmo que não seja o melhor, melhor remédio, né? E a mesma coisa, questão sexual, né? Por exemplo, dificuldade de ter orgasmo. Homem tem orgasmo muito mais fácil. Então, às vezes, alguns pacientes muito homens até bom que o remédio faça, segure um pouquinho o tempo de ter orgasmo. Mulher não, a mulher de um modo geral já é mais difícil. Então você tem que evitar remédios que dê problemas sexuais. Mas então os problemas que eu acho que incomodam as pessoas seria esse, da retardo para o orgasmo, ganho de peso. E aí alguns remédios às vezes um pouquinho de sedação ou algo assim. Esses efeitos colaterais muito comuns, que é náusea e soltar um pouco o intestino, é só no começo do tratamento. Passa uma semana ou duas. Então não é nada que me preocupe tanto assim, tá? Mas ganho de peso e problema sexual, isso é o que faz as pessoas abandonarem

Doutor Márcio, última pergunta que eu tenho:

e não tratar, né, os diversos casos de ansiedade, ele pode ter alguma consequência para além de da simples permanência do sofrimento, né? Pode evoluir, pode piorar alguma coisa assim? Depende da patologia, mas de um modo geral, de um modo geral, se você não tratar, é péssimo. Teve um estudo chamado Estudo de Segmento de Zurique, de uma professora chamada Americana, ela mostrou que o desenvolvimento normal é você ter ansiedade quando muito jovem, Aí isso evolui depois, em torno dos 20, 30 anos, para crise de enxaqueca, mesma população, e depois dos 40, 45, depressão. É comum depressão como consequência de um transtorno de ansiedade não tratado. É como que todos esses sistemas cerebrais de defesa entrassem em algum momento em no more, no más. Tem uma fadiga uma exaustão do sistema cerebral de defesa e a pessoa deprime, tá? Então um dos problemas de não tratar é um risco muito aumentado de depressão. Outro risco de não tratar é consequências sociais, é de emprego, de perda de amigos, limitação existencial de nunca sair do bairro, da casa, que acaba levando à depressão também, né? E aí a automedicação, que as pessoas não vão ficar assim, elas vão ficar tomando antihistamínico, que engorda para chuchu, álcool, álcool. Muita gente usa álcool numa tentativa de autotratamento da ansiedade. É um péssimo ansiolítico, porque ele tem uma vida muito curta, você tem rebote logo depois. Então vejo, o que eu mais vejo no consultório é pânico de domingo de manhã, depois que o pessoal exagera um pouco no sábado à noite. Então a própria ressaca do álcool dá muita ansiedade. Então péssimo tratamento. E também, que também é um péssimo remédio para ansiedade, é cannabis. Então muita gente acaba usando cannabis, e a cannabis ela é sedativa, dá muito apetite, mas é um bom ansiolítico, porque ela mistura efeitos sedativos com ativadores, né? E outra coisa da cannabis é que ela gera muita tolerância. Então me lembro de ter visto relatos de pessoas assim que lutaram no Vietnã e diz que nos anos 60 a única coisa que fazia ele dormir era dar um tapinha de maconha. Agora nos anos 2000 o cara tinha que fumar um charuto de maconha e não conseguia dormir. Então um dos problemas da cannabis é desenvolvimento de tolerância, usar cada vez mais, usar todo dia, usar não só no final da tarde, mas também durante o dia e trabalhar sob efeito de droga. Vira uma bola de neve de problemas. Eu diria assim, não é uma boa opção não tratar, não vai embora sozinho. Doutor Márcio, para finalizar nossa conversa, eu sempre peço para o entrevistado deixar uma mensagem, né, falar o que quiser. Pode ser tanto algo que você sentiu falta, que as perguntas não deram abertura para falar, reforçar algo que já falou, mas considera muito importante. Pode ficar à vontade. Não, eu acho que é um bom momento de reforçar, né, que ansiedade é um estado emocional normal. Todos nós temos que ter em determinado grau, e a necessidade de busca de ajuda é quando isso te causa sofrimento excessivo e prejuízo funcional, tanto do ponto de vista de não conseguir fazer nada, como na competição com os outros. E que existem tratamentos eficazes, não são tratamentos problemáticos, não dão dependência, não dão grandes efeitos colaterais, e a opção de ir empurrando com a barriga, de procrastinando a busca de tratamento não é a melhor opção. Mais uma vez, muito obrigado, Dr. Márcio. Sei que a agenda de vocês é sempre bastante concorrida, mas obrigado por ter arrumado esse tempinho para falar com a gente. Imagina, mais uma vez obrigado pelo convite. O aparte hoje é do Felipe José Santaella. Eu não sei se se pronuncia assim o sobrenome dele, mas o arroba dele é o próprio nome dele, é @felipejosessantaella. Santaela, com dois Ls. Pensar em saúde mental não quer dizer pensar em evitar diagnósticos psiquiátricos. Uma coisa importante é que é possível você ter um diagnóstico psiquiátrico sem ter, por exemplo, prejuízo na sua saúde mental, e você pode ter um prejuízo muito importante na sua saúde mental sem ter um diagnóstico psiquiátrico. Por isso que políticas públicas voltadas para a saúde mental devem ser focadas nos aspectos ambientais, mais, como por exemplo lazer de qualidade, direitos garantidos, espaços comunitários, de tal forma que você consegue viabilizar que a pessoa não só tenha uma vida, mas tenha uma vida que ela consiga explorar suas potencialidades. Até porque, inclusive, se a gente for pensar como uma vida boa é uma vida sem diagnósticos, isso vai levar a certas distorções. Obrigado, pessoal, por terem ouvido esse episódio. Como eu falei na introdução, eu tentei aproveitar melhor o nosso tempo e passei meio batido por coisas que são mais fáceis de encontrar sobre ansiedade, tipo o que é, sintomas, até dica para crises, né? A gente encontra bastante por aí. E aí deixei isso um pouco de lado para concentrar a conversa em coisas menos faladas, mas que ainda assim podem ser úteis para vocês. Espero que a gente tenha conseguido alcançar esse objetivo e que vocês tenham gostado desse caminho, né? Comentem aí no Spotify no Instagram, o que vocês acharam, que a gente gosta muito de ouvir vocês. E agora a gente decidiu também tentar uma coisa nova

por aqui, que é a seguinte:

quem quiser contar sua história com saúde mental pode mandar pra gente um relato, né? Não pode ser muito longo, né, senão a gente não consegue ler no episódio, mas se você quiser compartilhar sua história, pode escrever pra gente no email entrementes@baioqueconteudo.com.br. Pode ser um desabafo, alguma história de como você conseguiu superar algum desafio. Profissionais podem mandar alguma coisa que achem interessante sobre esse universo, né? Fiquem à vontade, pessoal. Muito obrigado, até o próximo! O Entrementes é uma produção da Baioque Conteúdo. Tem roteiro e apresentação minhas, Luiz Fujita. Edição da Amanha Hatzyrah. Coordenação geral da Tainã Damião. E trilha sonora do Paulo Garfunkel, nosso querido Magrão. Quem cuida das redes sociais é a Tainah Medeiros. Siga a gente no no seu tocador de podcast favorito e dê sua avaliação, que as estrelinhas são muito importantes para nós. Se inscreva no canal no YouTube, que os episódios também vão para lá em vídeo. Siga também no Instagram,@entrementepodcast, e conversa com a gente por lá, pelos comentários ou por mensagem. Um grande abraço e até o próximo episódio.