Entrementes

#88 | O que a série Adolescência nos ensina a observar

Baioque Conteúdo Season 8 Episode 4

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A série Adolescência trouxe muitas preocupações e, naturalmente, uma ânsia por respostas sobre como evitar algo como o retratado. Mas não adianta fugir: a questão tem múltiplas camadas, ainda mais por envolver adolescentes. Cérebros em formação, construção da identidade, desejo de pertencimento, baixa autoestima, comunidades digitais sem controle, bullying, o cenário todo contribui.

Conversamos com Thiago Fernando da Silva, psiquiatra forense do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, sobre a série e o que devemos tirar dela como pontos de reflexão.

Aparte: Alfredo Simonetti

Produção: Baioque Conteúdo
Roteiro e apresentação: Luiz Fujita Jr
Coordenação geral: Tainã Damião
Redes: Tainah Medeiros
Edição: Amanda Hatzyrah
Trilha sonora: Paulo Garfunkel
Instagram: @entrementespodcast
YouTube: @entrementespodcast

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Olá, sejam bem-vindos ao Entrementes, o nosso podcast de saúde mental contra o estigma. Eu sou o Luiz Fujita e hoje a gente vai fazer um episódio motivados pela série Adolescência, né, do Netflix, que fez muito barulho recentemente. Muita discussão se levantou com a série, né, e junto com essa discussão vem muito temor, né, como a série lida com violência, tem uma coisa muito criminal, né, e lida com adolescência. Então assim, pai, mãe, responsável, Começou a ficar muito preocupado, né? E aí a intenção da nossa conversa hoje vai ser tentar colocar um pouco o pé no chão dessa preocupação. E pra onde que a gente deve direcionar a nossa atenção quando a gente está falando dos nossos adolescentes? Que conflitos essa faixa etária vive? Qual o nosso papel de fato como mediadores de uma adolescência saudável? Eu gostei muito da série, acho que ela foi bastante realista e tal, mas aí tem uma parte que é nossa, né? Como a gente recebe aquilo e aí nossas preocupações como leigo, acho que merecem uma ajudinha aí. E teremos essa ajuda hoje com o Dr. Thiago Fernando da Silva, que é médico psiquiatra forense do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Obrigado, Dr. Thiago, por ter arrumado um tempinho para falar com a gente. Eu que agradeço, Luiz, agradeço muito o convite. Estava até conversando com você, né, fico muito feliz de poder participar desse tipo de atividade, esse tipo de troca, né, esse tipo de construção que a gente vai fazer nesse diálogo, né, que é uma muito parecido com o que a gente faz na clínica, né, de pegando esses pontos de vista, conversando, criando novas ideias. A ideia nunca é ser de uma coisa verticalizada, né. Então agradeço muito o convite e vai ser um prazer conversar com todos vocês. Doutor Thiago, para começar, como a gente foi motivado pela série, né, eu sei que você assistiu. E aí eu queria primeiro sua visão bem geral

assim, né, se alguém chegasse e perguntar:

você assistiu? O que que você achou? Primeiro, acho que eu vou dar minha visão como alguém que gosta muito do audiovisual. Sou um cinéfilo, adoro, me interessa muito, né? É um prazer poder assistir. Eu achei uma série muito bem feita, eu gosto muito. A direção de fotografia, teve todas aquelas discussões sobre os planos sequências que realmente foram um diferencial da série. E já amarrando um pouquinho com essa questão até psicológica, psiquiátrica. Essa questão do plano sequência eu sempre acho muito interessante em obras audiovisuais, né? É uma maneira de você conseguir acompanhar aqueles personagens,

o desenrolar daquelas histórias. Eu vi algumas críticas de pessoas falando:

"Puts, mas é meio arrastado, é meio lento, podia ter algum corte." Mas eu acho que um dos objetivos dos criadores era justamente transportar a gente para aquela situação. E a gente fica angustiado junto com o desenrolar da história. A construção dos personagens eu acho excelente. O Graham, né, eu sou um grande fã do trabalho dele, de outras obras, e realmente é

interessante porque várias pessoas me procuraram, né, eu como psiquiatra forense:

"O que você achou do episódio 3 da entrevista forense?" Sendo que é o episódio que mais me afetou, de uma beleza foi o último episódio, foi o último episódio. Acho que questões de saúde mental, o fato de eu ser pai, todas essas preocupações. É interessante essa questão de saúde mental, né, que não tem uma— assim como na física quântica, a gente fala sempre que o olhar do observador muda o fenômeno. Então esses atravessamentos dos meus valores e a gente assistindo, realmente foi um episódio que me tocou Muito, assim, aquele tipo de episódio que você termina de assistir, você passa um bom tempo reflexivo tentando digerir tudo aquilo que apareceu. Então eu gostei muito, muito, muito, assim, realmente eu achei uma obra de arte cinematográfica muito legal. Aliás, inclusive, né, para quem assistiu, eu não pensei em perguntas para dar muito spoiler, mas assim, eu prefiro falar, olha, talvez tenha, então se você é muito chato, eu sou muito chato, né, Então, como eu não sei exatamente o que a gente vai precisar falar ou

não, e não queria também restringir e falar:

"Não, não vamos falar", porque acho que isso pode talvez prejudicar um pouco o conteúdo, que é o que mais interessa. Quem achar melhor, então espera um pouco, né? Assista antes para garantir, e aí a gente vê depois. E até acho que para recepção do que a gente vai conversar pode ser melhor, né? A pessoa sabe do que a gente está falando melhor, né? Então, iniciando nossa conversa aqui, Dr. Thiago, Eu achei a série, ela tem um ponto positivo que eu acho muito legal, que ela é bastante sutil por mostrar uma situação meio que quase como um reality mesmo, assim, a gente não tem muito da interioridade dos personagens, a não ser pelo que eles mesmos

expressam ali, pelo que tá acontecendo, né? Então a gente não tem assim:

"Nossa, o adolescente que tá acusado de um assassinato." Aí não tem ele ali, nossa, sei lá, sofrendo bullying, falando com a menina, sendo isolado pelos amigos, não tem nada disso, né? A gente tem o que acontece depois e como ele se expressa depois, assim como todos os outros personagens. E eu acho isso interessante, né? Porque é uma das partes que eu gostaria de explorar um pouco com você. A gente tem um pouquinho disso quando os policiais estão fazendo aquela primeira fala com ele, e aí eles falam, né? Como era sua relação com mulheres? Você gosta de mulheres?"Você postou tal coisa", né? A gente tem um pouquinho dessa investigação. Eu queria fazer um pouquinho mais ou menos isso, o que os policiais estavam tentando fazer, mas sendo você, um psiquiatra forense, né? O que que a gente consegue captar ali da série que

a gente fala:

"Pô, esse é um percurso que esse adolescente pode ter passado, talvez tenha um pouco a ver com isso". Não que esse percurso vá em todos os casos, tem um desfecho extremo como o da série. Mas assim, que elementos que a gente

pode falar:

"Bom, há coisas que eu vejo aí pela minha experiência que fazem parte da vida de adolescentes que se assemelham com a história desse adolescente da nossa série." Sim. Me surpreendeu muito, até sinceramente, Luiz, assistindo a série. Realmente foi um mérito muito grande. E pensando de obras de arte de uma maneira geral, né? Particularmente, eu, Thiago, eu não Doutor Thiago, mas eu, Thiago, eu não gosto muito de obras de arte que tem uma questão muito didática, muito clara, muito explicativa, que quer dar respostas para tudo. E esse é um tema que é absolutamente impossível de você sair com todas as respostas. E é interessante, né, que até eu fui ver alguns comentários de usuários, né, entrei no Reddit, as pessoas comentando, tá, mas acabou aí? Mas e o julgamento? Mas o que que aconteceu depois? Então ele acaba fazendo um corte daquela situação, né, com diferentes enfoques. Eu achei uma coisa muito incrível em relação ao comportamento humano, porque não é uma visão estereotipada. A construção dos personagens uma construção muito real, e é uma construção que a gente vê na nossa clínica, nos nossos atendimentos, que a gente vê na vida real. Essa questão, né, de muitas coisas são uma nuance, muitas coisas não são ditas, muitas coisas são subentendidas. Tem várias simbologias ao longo da história que eu acho que são muito bonitas, né? Quando os policiais vêm prender o Jamie, que todo mundo comentou, né, que tinha aquele papel de parede rasgado que se assemelhava talvez a uma arma, alguma coisa do tipo, aquela imagem, mas nunca é explicado. E eu acho que não precisa ser explicado, porque eu acho que isso justamente o espectador entrando em contato com essas questões. Isso pra gente, na nossa prática clínica, isso é muito importante. O ser humano é extremamente complexo, a gente não tem respostas simples e fáceis para fenômenos que são extremamente complexos. E tem uma coisa que eu gostaria de falar pra você, que a humanidade de uma maneira geral, ela tem um fascínio muito grande pela capacidade humana para violência e para crueldade, né? Então, prova mais do que suficiente disso, a gente se encontra, né, nos espelhos, são as nossas mídias sociais de entretenimento, né? Ou seja, mesmo que a gente tenha dados, né, globais que mostram uma tendência constante na era moderna de redução de violência, mas a gente tem uma questão muito de um interesse muito grande nesse tipo de conteúdo. E você vê um monte de séries e e produções de true crime que acabam fazendo tanto sucesso. Um tipo de análise que eu vi muito depois, na esteira do lançamento da série, eram muitos profissionais de saúde mental tentando buscar uma explicação e analisando qual que é o diagnóstico do Jamie. Qual que é o diagnóstico que ele tem? Ele é psicopata? Ele é antissocial? Ele é sociopata? Ele é narcisista? Ele é borderline? Então eu vi 1 milhão de pessoas discutindo de profissionais de saúde mental entrando nessa discussão, porque a gente vê que é um fenômeno muito claro quando acontece um ato muito grave, um ato de violência, é muito mais tranquilo para as pessoas acreditarem que aquilo é fruto de um transtorno psiquiátrico, ou seja, não tem nada a ver com a gente, não tem nada a ver com o Thiago, não tem nada a ver com o Luiz, não, é um cérebro alterado que fez aquele tipo de ato tão hediondo. Isso gera um certo conforto nas pessoas. E quando a gente vai analisar e fazer uma microscopia desses eventos, a gente vê que a situação é muito mais complexa. E na verdade são várias e várias camadas que são abordadas. Então tem a questão da criação parental, que a gente pode discutir. Tem a questão das comunidades online e dessa radicalização que a gente vê. Tem a questão dos nossos jovens estarem sendo expostos de uma maneira totalmente não supervisionada e não regulada, o tipo de conteúdo. E a gente sabe que é um cyber desenvolvimento que pode ter realmente um impacto muito grande, uma influência muito grande, mas não tem nada que explica de uma maneira sucinta assim, numa resposta, o que que causou, por exemplo, o crime. Foi a comunidade incel? Foi o bullying? Foi isso, aquilo? Até porque quando a gente vê desse fenômeno, né, de de violência é um fenômeno muito complexo e todo crime é uma tragédia para as vítimas, famílias, para os criminosos. E eu não tô nem falando aqui argumentando que qualquer ação violenta tem que ser perdoada, que as nossas prisões, nossos hospitais de custódia têm que ser esvaziados, porque eu acredito na justiça. Eu acho que dentro de uma estrutura as pessoas precisam ser responsabilizadas. Só que eu acho que tem também uma questão de compreensão desses fenômenos, porque essa compreensão ela passa por prevenção. Se a gente conseguir entender quais os diferentes fatores que estão relacionados, isso não significa que a gente está passando a mão na cabeça, a gente vai desresponsabilizar, pelo contrário. Só que se a gente não se aprofundar nesse tipo de análise, a gente perde uma janela de oportunidade de analisar esse fenômeno que acaba me preocupando muito. E eu acho interessante que tem uma psiquiatra forense, ela até lançou um livro aqui no Brasil muito, que eu recomendo muito que leiam, que é da Gwen Adshade, e ela é uma psiquiatra e psicoterapeuta forense. E o livro são vários relatos de pacientes que ela atendeu. Ela trabalha lá na Inglaterra e ela vai falando as histórias de vida, os possíveis fatores envolvidos nesses atos de violência. E é interessante porque tem uma comparação que a gente faz com os atos de violência, que é como se fosse um cadeado de bicicleta, sabe? O cadeado de bicicleta que tem todas as Você precisa ter uma combinação exata para você poder chegar e conseguir abrir. Então, provavelmente, fazendo essa comparação, essa metáfora, esses dois primeiros números, quando a gente vê, provavelmente tem a ver com um contexto sociopolítico, tem a ver com atitudes em relação à masculinidade, que isso foi trabalhado muito em relação à série, tem a ver com condições socioeconômicas, vulnerabilidade, pobreza. Por exemplo, a gente sabe que a maior parte da violência do mundo é cometida por homens jovens e pobres. E é justamente o caso do Jaime, né? Então entra nessa questão, mas só isso não explica. E aí tem os outros dois números que vão ser

mais específicos para o caso do criminoso:

um tipo de maus-tratos na infância ou uso indevido de substâncias. E aí tem um número final que a gente brinca, né, que é aquele número final que precisa estar naquele cadeado para deflagrar esse processo de violência. E às vezes acaba sendo muito idiosincrático, né? Pode ser um gesto, uma frase, um sorriso, aquela interação dele, né, com a Kate. Pode ser que junte todos esses fatores e dê origem a essa questão. Então acho que tem vários enfoques que podem ser feitos. Por isso que eu achei muito bonito a série, que ela foi mostrando os diferentes fatores. Então a questão do bullying, a questão das relações familiares, essas visões que ele tinha sobre a masculinidade. Por meio da entrevista com a psicóloga forense. Então são um monte de questões que vão surgindo, é extremamente complexo. Então realmente eu acho que aquele último episódio dos pais refletindo, e de novo eles fizeram, a gente sempre fala isso na clínica, as pessoas fazem o melhor que elas conseguem, não é para culpá-los, as pessoas fazem o melhor que elas conseguem. Eu acho que aquela frase que o pai falou num diálogo, putz, meu pai me espancava, quando eu era pequeno. E eu prometi para mim mesmo que quando eu tivesse meus filhos eu não iria espancá-los. Mas talvez só isso não foi suficiente, talvez realmente. Mas isso não significa de uma culpa em relação a eles, mas uma visão de que tem muitas características, inclusive características individuais da personalidade do Jamie, que talvez passaram despercebidos. Então acho que fazendo um panorama de todas essas questões que me chamaram muita atenção, é, eu gostei muito por essa complexidade e não dá uma resposta fácil. Agora, saindo até um pouco do Jamie, Doutor, e até a despeito disso, né, eu acho que é até difícil você ter aquela coisa, né, ah, se você embaralhar um deck de baralho, provavelmente o seu embaralhamento vai ser o primeiro que foi feito no universo de tantas possibilidades que tem. Acredito que seja até um pouco assim, né, tem os fatores que a gente vai mapeando com a ciência, etc., mas É o que você falou, aquela pessoa naquele momento teve uma coisinha que, sei lá, vai dizer que foi isso? Não, foi isso. Então a possibilidade é tanta que a combinação delas é tão particular que não adianta a gente tentar achar o que foi que causou pontualmente, né? Ainda assim, como você falou, a parte das redes sociais, de alguma forma a gente percebe ali que tem um peso, né? Tiveram algum peso na história. E isso trouxe um monte de matéria, né, a partir disso, sobre a série. Então era como controlar, né, como os pais devem controlar o significado de emoji, enfim. Mas não queria tanto falar sobre isso, mas sim de uma outra leitura que eu vi, que eu achei interessante, que é, na verdade, os conflitos da adolescência não mudaram tanto. Essa é a leitura que eu vi, né? Não mudaram tanto assim, nem assim, num país, adolescência sofre as mesmas questões há décadas. Talvez os filhos, tirando a parte de "ah, eu fui espancado, o outro não", mas esses conflitos que a gente fala "nossa, isso é bem da adolescência", não mudaram tanto. As redes sociais têm seu papel, obviamente, talvez amplificaram coisas, facilitaram outras, mas a essência daquele mundo não mudou tanto assim. Queria saber sua visão sobre isso e que mundo é esse que os adolescentes vivem hoje, E que realmente acho que aí a gente começa a entrar no que a gente precisa ficar atento e que pode ser um risco, né? Concordo super com você, né? Porque tem uma questão da própria estágio da adolescência e a gente sabe isso até por meio do conhecimento neurocientífico de maturação do cérebro. Os adolescentes, eles têm áreas do cérebro de controle de impulsos que estão imaturas. Eles têm áreas do cérebro que estão relacionadas com comportamentos mais impulsivos que ainda estão numa intensidade ainda maior, né? E quando a gente vê realmente essa— é uma fase muito crítica para o desenvolvimento, é uma fase que tem uma série de desafios. E existe uma questão até de um crescimento normal, de um desenvolvimento normal, de questionar autoridades, de questionar o status quo, né? A maneira como as coisas estão colocadas. Isso é absolutamente normal. Inclusive, a gente, quando a gente atende no consultório um adolescente que é totalmente conformista, que não questiona, isso pode inclusive ser um indicativo de um sofrimento mental, porque é esperado que nessa fase da adolescência exista esse tipo de questionamento. E concordo com você, não é uma coisa que foi criada pelas redes sociais, porque você pega anos 60, anos 40, eram outros desafios, eram outras questões, mas ainda assim existiam essas tensões, né? Porque é interessante que você pega textos de gregos E os gregos de 40,

50 anos comentando sobre a juventude, falando:

olha, mas essa juventude é péssima, eles não fazem as coisas, eles não leem, eles não têm respeito pelos mais velhos. Então isso é uma coisa absolutamente geracional e que tá há milhares de anos esse ciclo acontecendo. Mas é claro, né, é importante primeiro da gente pensar, eu acho que sim, as redes sociais é uma grande preocupação. Tem muitos estudos que mostram que as redes sociais podem ser um catalisador muito grande para uma questão de realmente um processo de uma radicalização, independente do que a gente seja, independente de qual caminho que vá, né? E a gente tem uma capacidade que a gente chama de mentalização, que de uma maneira muito bruta, e é interessante porque a gente vai aprendendo isso desde a tenra infância até a vida adulta, basicamente mentalização é a capacidade da gente pensar sobre os nossos próprios estados mentais e os estados mentais de outras pessoas. E é importante da gente saber dos nossos sentimentos, dos sentimentos

das outras pessoas. Então, por exemplo, vou te dar um exemplo:

a gente combinou um determinado horário para a gente fazer essa gravação do podcast. Imagina que eu não apareço,

não dou nenhuma justificativa. Você pode ficar com uma coisa na sua cabeça:

putz, será que ele teve imprevisto? Será que aconteceu alguma coisa, problema de saúde, algum paciente, alguma coisa? Só que ao mesmo tempo existe um combinado entre a gente de horários. Só que a gente pode tentar resolver essa situação de maneiras diferentes.

Tipo:

"Poxa, Thiago, fiquei com aquele horário, o que aconteceu? Me explica." Não, tudo bem e as coisas se resolvem. Pacientes que têm uma dificuldade muito grande com uma situação de frustração, o fato de passar para um ato de violência acaba sendo muito comum. Ou seja, quando a pessoa não tem essa capacidade de mentalização bem desenvolvida, e é uma linha de terapia, inclusive a linha de terapia que eu trabalho com os meus pacientes, inclusive pacientes graves, pacientes que cometem vários atos de violência, É justamente refletir sobre os próprios estados mentais, refletir sobre o impacto que isso vai ter nas outras pessoas e se existem outras maneiras de comunicar. Porque a gente fala que todo ato de violência ele tá querendo passar uma mensagem. Todo ato de violência ele quer passar uma mensagem. Então no caso da série, quando o Jamie toma aquela atitude, obviamente criminosa, totalmente repreensível e que realmente não está justificada, só que a gente entender qual mensagem que ele tava querendo passar. Com aquele ato é importante pra gente poder perceber. Todo ato de violência tem uma mensagem embutida, só que existem maneiras muito mais saudáveis da gente conseguir se comunicar e passar essa mensagem. Porque aí junta num contexto difícil, né, porque muito se falou, né, mas no episódio 4, né, sem dar tanto spoilers, mas o pai era uma família normal, como que aconteceu, só que você vai fazendo uma microscopia em relação daquele episódio o pai é extremamente agressivo, não fisicamente, mas verbalmente, emocionalmente, por exemplo, com a esposa e com a filha. Uma questão até de intimidação, do tamanho dele, quando ele pega o balde, ele sai e bravo, e aí na loja que ele joga tinta e ameaça,

e tem até no final, né, que a esposa vira para ele e fala:

"Mas você tem o mesmo gênio dele." E a gente aprende por modelagem, a gente crescer num ambiente onde a gente entende que os conflitos podem ser e devem ser resolvidos por meio da violência, é que a gente pensa muito em violência física, mas violência emocional é muito mais prevalente e muitas vezes os prejuízos de uma violência emocional, incluindo negligência emocional, eles podem ser tão graves ou até mais graves do que uma violência física. Então a gente vai entendendo aquele contexto onde ele foi crescendo, nessa questão da masculinidade, essa questão dessa violência, realmente a gente começa a entender um pouco melhor, assim, montando um quebra-cabeça de onde que tudo isso surgiu. E de novo, são pessoas que estão fazendo o melhor delas. Não existem mocinhos e vilões, não existe uma visão maniqueísta em relação a essa família. Existe uma visão realista, uma visão muito cru das coisas que acontecem e de como essas famílias acabam tentando lidar e fazer o melhor que elas podem. E nessa parte das violências emocionais, não só violências, né, mas fatores que afetam o emocional, né? E aí falando dos nossos adolescentes brasileiros, aí até queria contextualizar mais para o nosso lado aqui, né? O que que tá pegando, né? O que que você vê assim que tem pegado? Pô, ser adolescente brasileiro hoje, claro que tem todas as desigualdades de várias ordens, né, entre os adolescentes, mas o que que você selecionaria assim? Atualmente, em 2025, é uma barra ser um adolescente brasileiro? Por quê? E aí talvez algumas coisas que você diria, olha, isso aqui tem sido difícil. Uma coisa interessante que a gente vê, né, que maus-tratos na infância, eles estão muito relacionados com sofrimento emocional, transtornos psiquiátricos, de vários desfechos negativos de saúde. E as pesquisas nas últimas décadas inicialmente tinham um foco muito grande, por exemplo, em abuso físico, abuso sexual, e que são formas gravíssimas de maus-tratos. Mas existem outras formas de maus-tratos, por exemplo, negligência emocional. Então é uma coisa que a gente vê que não se fala tanto. E na verdade a gente vê geralmente um paciente que sofre maus-tratos, ele sofre várias formas de maus-tratos ao mesmo tempo. Ou seja, um paciente que sofre uma violência física, muito provavelmente ele vai receber também, ele vai ser vítima de negligência. Por exemplo, negligência emocional, que é um aspecto fundamental. Ou seja, quando um bebê nasce, ele tá completamente solto no mundo. Ele precisa desse olhar desses pais, ele precisa do carinho não só dos pais, mas de todos o meio social ao redor dele para dar todos os instrumentos para que ele possa se desenvolver. Então a história, por exemplo, né, putz, mas eu vou ter que olhar o celular do meu filho, ou as discussões, mas com quantos anos eu posso dar um celular para o meu filho, não vai uma resposta, uma receita de bolo muito fácil para isso, mas é não deixar aquilo sem supervisão. Porque muitas vezes a gente vê, né, no ambiente, o adolescente, ele tá passando por uma situação emocional super difícil e ele não tem uma abertura para falar aquilo com os pais, ele não tem uma abertura para falar aquilo com pessoas ao redor dele. Então muitas vezes ele vai buscar abrigo, vai buscar orientações em redes sociais, no Discord, no Reddit, em todas essas comunidades, e vão dar uma solução para ele, uma solução entre aspas, que são esses discursos machistas, esses discursos incel, esse discurso red pill, esses padrões, justamente porque tem uma fragilidade muito grande, e um jeito de você lidar com essa fragilidade é você colocar uma capa por cima disso. Então você coloca uma capa muito grande por cima disso. Então eu acho que é uma questão de comunicação e dos pais e dos cuidadores e realmente estarem mais próximos das crianças e dos adolescentes. Isso é fundamental e realmente precisa ter uma certa vigilância em que tipo de conteúdo que está sendo observado. Até porque seria o equivalente, por exemplo, de você deixar seu filho sozinho na rua, entrando na casa de quem ele quer, falando com quem ele quer, se expondo. Eu acho que a internet, as redes sociais, têm um potencial, elas são uma ferramenta, mas se deixar isso na mão de um jovem que não tem uma maturidade emocional, o risco é muito grande, porque existem pessoas muito ruins no mundo, essa que é a grande questão, e existem muitas pessoas que vão manipular esses indivíduos vulneráveis, e é papel de todos nós pensarmos como proteger isso, porque a gente está garantindo um desenvolvimento emocional adequado. Até retomando uma coisa que você mencionou, que é essa coisa de um Esse tipo de caso, quando acontece na realidade, né, não na ficção, existe muito julgamento mesmo sobre os pais, né? E a gente já, acho que já apontou bastante aqui de que isso não deve ser feito, né? As pessoas estão fazendo o melhor possível. Mas amarrando com o que você tava falando agora, Doutor, essa parte da negligência emocional, né? Eu não sei se você teve essa impressão, mas a série, daquela forma que você falou, né, muito sutilmente, muito no subentendido,

Você fala:

acho que esse pai podia ter uma dificuldade de comunicação com esse filho, por questões dele mesmo." E é isso, você não vê isso acontecendo de fato, mas aí vem a genialidade da obra, né? Você percebe isso. E aí eu queria falar um pouco sobre isso e na esteira do que você falou, né? Dessa negligência emocional. Em alguns outros episódios, não vou lembrar agora qual era o tema, vem essa orientação, né? De que precisamos estar próximos, ser disponíveis, né? E dar conforto, né? Para as crianças e adolescentes virem falar com a gente, né? Aí eu queria saber sua orientação um pouco mais concreta assim, porque acho que os pais ouvem essa dica, essa orientação, mas não têm ideia de como que se faz isso, porque eles acham que estão fazendo o melhor, eles também têm suas questões emocionais que muitas vezes não são trabalhadas. Então, tipo, pô, mas me ajuda um pouco, um passinho além só, o que que eu tenho que fazer? Não, excelente, eu acho que essa pergunta de 1 milhão de dólares, fico feliz que a gente chegou nessa questão. Primeiro, os pais não têm obrigação de saber essas questões na prática, né? Porque pode parecer muito bonito, tal, Thiago tá falando da necessidade de comunicação, mas aí eu entro no quarto do meu filho, o que que eu faço se

ele fala:

não, pai, não quero falar com você, fecha a porta, bate, grita? Tá, eu abro a porta de novo, eu saio, eu volto. É muito difícil. Então, primeiro, primeira questão, existem muitas pessoas que já pesquisaram sobre isso, já estudaram sobre isso, e por exemplo, uma das principais linhas de intervenção de tratamento na infância e na adolescência é orientação parental. Ou seja, existem programas específicos que vão ensinar para esses pais exatamente o que que eles têm que fazer, porque senão fica uma coisa muito solta, né? Você está precisando estar mais próximo dos seus filhos, aí você entra no quarto, ele tá mexendo no celular, e aí ele fala que não quer falar comigo, então eu vou tirar o celular, eu vou proibir, eu vou dar o celular, mas vou falar que eu quero conversar com ele.

Às vezes a coisa fica muito solta. Então a primeira dica:

procurem profissionais de saúde gerente mental, que vão ser as pessoas mais capacitadas. E não tem problema nenhum. Às vezes as pessoas ficam com vergonha, né? Puts, mas é uma coisa sobre ser pai. Sim, e tem muitas coisas que realmente a gente acaba tendo que aprender, a gente acaba tendo que revisitar. Isso não é um problema nenhum. E pelo contrário, por exemplo, existem muitas intervenções parentais que são feitas na primeira infância, numa fase mais, mais tardia, por exemplo, para controlar agressividade em crianças. Então você faz um treinamento de poucas semanas e você coloca aquilo na prática, você faz depois uma avaliação anos depois e você vê que o efeito daquela avaliação se mantém. Ou seja, a gente pensar, por exemplo, essa questão da mentalização que eu falei, os pais entenderem, os pais saberem como lidar, como abordar essas questões, porque os pais também estão extremamente angustiados, tá? E como que a gente trabalha com a nossa própria angústia, né? É muito interessante quando a gente fala até, por exemplo, de bebês pequenos. Bebê tá chorando por diversos

motivos, a melhor dica:

fique calmo. Se você não ficar calmo, se você ficar irritado, o bebê ele vai absorver aquilo e vai piorar a situação. Então essa é uma

dica. Eu falo:

nossa, então, por exemplo, você tá com seu marido, com a sua esposa, quando vê que um ficou muito irritado, sai do quarto, vai tomar uma água, deixa que a outra pessoa cuida, alterna. Então são essas orientações que a gente vai fazer, e na verdade orientações muito mais estruturadas e específicas para cada situação. Isso existe, isso tem resultado. Não é obrigação dos pais saberem o que fazer exatamente, por isso que realmente tem várias técnicas que a gente pode utilizar e que a gente vê na prática que ajuda muito. A qualidade do vínculo melhora muito. Então realmente procurar profissionais sérios de saúde mental que podem ajudar muito. O objetivo da série também, que eu acho que é importante,

não é trazer um desespero primeiro para todos os pais:

meu Deus, eu não sei o que que meu filho tá mexendo no celular e ele vai entrar na escola, meu. A gente não vê isso acontecendo. Tipo, fiquem tranquilos. E o objetivo não é só evitar que um ato tão grave desse aconteça, mas é melhorar a qualidade da relação entre as pessoas, é melhorar a comunicação. Às vezes a gente vê, e na prática o mais comum que a gente vê, são famílias que se amam muito, que gostam muito uma das outras, mas que tem uma dificuldade de se comunicar e problemas acontecem. Eu como psiquiatra forense, as pessoas

falam:

"Ah, mas se tiver um psicopata ali no meio..." É muito raro, sinceramente e felizmente é muito raro. A maior parte das famílias que eu avalio são pessoas que se amam muito, são pessoas que querem muito bem umas das outras, mas que têm dificuldade de modular esse sentimento, essas comunicações. Então realmente acaba vai acabar dando algum problema no meio do caminho, mas que tem tratamento, tem intervenção, e todo mundo cresce nesse processo. Doutor, queria ouvir você sobre masculinidade, né, que eu acho que é uma coisa que na série é bem evidente, né. E eu queria só, antes de ouvi-lo, dar um exemplo, né, que eu fiquei pensando um pouco nisso. Eu tenho um enteado, né, ele tem 8 anos agora, E assim, aqui vivemos uma— a gente sempre acha que a gente não, acho que eu sou razoavelmente esclarecido, sempre atento, conversamos, gosta, bem isso que você falou, né? Achamos que estamos fazendo o melhor possível. Então a gente estimula muito essa coisa, coisa de gênero, né? Como é um menino, essas coisas de gênero a gente acaba tendo uma atenção especial, né? E assim, aí a gente tava, eu tava comentando com minha companheira, nossa, mas é fatal, né? A gente vai nos aniversários, pouquíssimas meninas jogam bola. Por mais que assim, a gente fala, tem uma que joga, que já é muito diferente da minha época, que era zero. E se jogasse, ia ter alguma coisa. Hoje em dia não tem. Então, que melhorou um pouquinho, mas assim, é uma menina que às vezes se mete a jogar, sabe? E a gente ficava pensando sobre isso, né? Pô, por mais que a gente promova esse ambiente, a escola é não sei o quê lá, os amigos são assim, a gente fala sobre isso,

parece que o contexto é superior, assim, né? Ele fala:

"Não, isso não vai acontecer, ou vai demorar muito mais do que você está pensando." Aí eu queria te ouvir um pouco sobre masculinidade, né? O quanto isso ainda é antigo, ainda hoje, por mais que a gente converse mais e veja a discussão na mídia, etc., o quanto ainda é da mesma forma que a gente via há 30, 40 anos, né? Porque é mais ou menos a minha idade. Acho que essa é uma questão fundamental e a gente sempre brinca que toda psiquiatria, tô falando psiquiatria num sentido amplo de saúde mental, até porque realmente é a minha área de atuação, mas pensando numa saúde mental de uma maneira geral, a gente fala que toda psiquiatria é social, ou seja, a gente tá muito numa intersecção entre as ciências naturais e as ciências humanas, a gente tem todo um conhecimento sobre neurociência, desenvolvimento do cérebro, mas Esse cérebro ele costuma estar dentro de uma sociedade, né? Então a gente— ele não está descolado da realidade, ele está dentro de uma sociedade que se regula por diversos códigos e isso é fundamental. E um psiquiatra, um profissional de saúde mental que não reflita sobre esse tipo de prática vai ser uma prática enviesada. E é muito interessante porque teve uma série de publicações de uma revista americana de psiquiatria forense muito importante falando, por exemplo, sobre o viés de gênero nos transtornos mentais, por exemplo, de que mulheres, quando adotavam uma postura mais assertiva, mais combativa, muitas vezes até num contexto, por exemplo, de disputa de guarda de filhos, elas eram categorizadas como histéricas, que elas tinham algum transtorno de personalidade. E a gente vê que isso é um fenômeno que a psiquiatria carrega do século 18, do século 19, do século 20. Então essas questões, esses preconceitos, infelizmente ainda tão muito frequentes, né? Então, questões de gênero, questões de raça, questões várias políticas, os profissionais precisam lidar com essa situação porque a gente está dentro de uma sociedade que tem determinadas características, isso vai influenciar. E uma coisa que a gente fala muito, que é muito importante, é que é importante da gente fazer uma prática baseada em valores, ou seja, o próprio profissional ele precisa refletir sobre os seus próprios valores. Porque senão ele vai fazer uma análise de um determinado evento baseado nos valores dele. E infelizmente, bi, quando a gente olha, pensando na psiquiatria forense de uma maneira geral, nas últimas décadas, às vezes a gente vê algumas declarações de alguns psiquiatras forenses extremamente machistas, extremamente racistas, e que não condiz com o que a gente sabe de ciência, ética. Infelizmente, a área da psiquiatria forense ainda precisa muito avançar nesse tipo de discussão e precisa levar em consideração esses fatores culturais de uma maneira geral. E essa questão da masculinidade, né, e essa maneira como se coloca de uma maneira absolutamente tóxica, isso é uma questão estrutural. Fico muito feliz, né, de você ter trazido isso, porque primeiro a gente trazer isso à consciência e a gente identificar que isso existe já é um passo muito grande, que talvez há muitos anos atrás isso não acontecesse. E também me traz um certo desconforto porque nós somos dois homens discutindo sobre esse assunto. Então isso vai ter um viés nosso, né? A gente tá numa sociedade que a sociedade olha para a gente de uma determinada maneira. Por exemplo, tem muitas situações que eu nunca vivi na minha vida, que minha esposa, minha mãe viveram várias e várias vezes, e que eu, só por ser homem, eu nunca vou viver. Então quando a gente pensa nessa criação de filhos, e tem uma questão até de educação, ou seja, de Discutir sobre isso, discutir que essas questões existem, discutir que essa problemática existe, discutir que as coisas podem ser pensadas, ou seja, a gente ter uma certa flexibilidade de poder pensar sobre diferentes conceitos, isso já tem um impacto pedagógico e tem um impacto emocional muito grande. Então o fato da gente estar trazendo à consciência, a gente discutir, a gente admitir que isso existe, a gente admitir que eu muitas vezes ao longo da minha vida fui tomado por determinadas visões de masculinidade de uma maneira totalmente inconsciente, por estar dentro de uma questão estrutural. Então, o fato de eu ativamente, primeiro, escutar quando as pessoas falam,

escutar, por exemplo, quando mulheres viram para mim e falam:

olha, mas você percebeu que esse tipo de atitude pode ter essa consequência, pode passar essa mensagem? Putz, nunca tinha pensado, vou pensar. Então, a gente tá aberto para essas visões diferentes, a gente saber trazer isso à consciência, isso vai ter um impacto diferente na criação dos nossos filhos, por exemplo. A gente vai pensando que as gerações vão realmente construindo, vão pegando essas questões de sexualidade, essas questões de masculinidade. Infelizmente, na cena com, acho que no terceiro episódio, na entrevista com a psicóloga, fica muito claro,

né? Você vê que ele fica irritado quando ela fica perguntando:

"Por que você tá perguntando do meu pai? Por que você tá perguntando sobre essas questões de masculinidade?" E a gente vê que é um ponto central nessa visão que ele tem. E aí é uma outra coisa dessa não regulação das mídias, né? Ou seja, sobre falso discurso de uma liberdade de expressão, você não tem nenhuma regulação das mídias sociais, as pessoas estão falando coisas absolutamente criminosas nas redes sociais, as nossas crianças e adolescentes estão assistindo aquilo. E acabam atuando em cima daquilo. E é super difícil de você virar para um pai, para uma mãe que tá trabalhando o dia todo, que tá se matando para conseguir manter o mínimo daquela estrutura, de também ter tempo de sentar e ver absolutamente tudo. O que você vê como essa questão social é muito difícil, porque é injusto eu virar para uma mãe que

tá fazendo 2, 3 trabalhos, fala:

olha, você precisa também olhar o que que seu

filho tá olhando nas redes sociais. Ela vai virar para mim:

mas "Como que eu faço? Porque ou eu vou trabalhar ou eu vou checar isso." Então a gente precisa debater e a minha impressão é que eu acho que tem que ter uma regulação. As empresas têm que ter uma regulação, o Estado brasileiro tem, os estados de uma maneira geral têm que regular e têm que realmente ter um controle desse tipo de situação. Do jeito que tá, porque se a gente transferir essa responsabilidade pro indivíduo, pra mãe, pro pai que tá super sobrecarregado na ponta, Eu acho extremamente injusto. Perfeito, Dr. Thiago, a gente está chegando até no final da nossa conversa já. E aí eu queria aproveitar, como você falou, as violências, as capacidades do ser humano exercem um fascínio natural. Vejam aí a quantidade de produtos que se fazem sobre crimes, etc. E eu me enquadro nessas, me interessa bastante, gosto muito de ver, ler coisas sobre isso. E aí pensando, né, nossa, Dr. Thiago, num bar deve ser umas histórias para o que eu ficaria ouvindo assim durante muito tempo. Então queria aproveitar sua presença aqui para falar um pouco sobre esse episódio 3, que é o da psicóloga, né, que ela entrevista o Jamie. Imagino que haja diferenças no processo ali, porque é na Inglaterra, a gente aqui está no Brasil, mas existe alguma coisa assim semelhante? E o que se procura quando você vai fazer algo que seja mais equivalente a isso, se houver aqui algum tipo

de avaliação? Porque é isso que você falou, tipo:

"Ah, você vai entender a motivação dele, vai tentar traçar um perfil", enfim. Como a gente disse que isso sempre é muito multifatorial, multi, multi, multi. Qual que é o interesse, né? Que que você, como que você conversa e para quê, né? Eu acho importante pensar qual que era a função daquela profissional naquele momento. E a gente separa porque existem consultas que são terapêuticas, uma pessoa que vai para psicoterapia, que conversa, que vai se entender, que vai realmente analisar todas essas questões, mas relacionadas com tratamento. Aquilo não tinha um viés de tratamento, e isso foi uma grande confusão que as pessoas fizeram, aquilo era uma avaliação forense, ou seja, o objetivo daquela avaliação era responder uma pergunta que, por exemplo, algum juiz, algum promotor pudesse ter feito naquele processo, independente das leis, levando, prescindindo essa questão das leis, mas as avaliações forenses elas têm um objetivo diferente, porque não é uma relação profissional de saúde e paciente. É uma avaliação de um técnico, um perito, uma pessoa especialista naquilo, e que ela vai fazer um relatório. Tanto que ela fala, né, que aquilo na verdade era, eu acho que era uma das últimas entrevistas, né, que ela tava fazendo com ele, que ela não ia mais vê-lo. O objetivo é justamente isso, não vai ter uma continuidade do tratamento. Ainda assim, né, doutor, ela tem uma, isso é uma questão, né, ela faz coisas para criar algum vínculo ali, né, uma amizade, não uma amizade, mas assim aquele tipo de coisa, falar, eu para me sentir mais confortável, obviamente, né? Então não é também uma coisa, um protocolo que eu vou lá, faço umas perguntas, responde como quiser, né? Existe uma tentativa de vínculo, né? E até porque nessa área de saúde mental a gente depende exclusivamente do relato do paciente. É diferente, sei lá, você vai fazer uma avaliação ortopédica e você fala para

mim:

putz, Luiz, tô sentindo uma dor nas costas, não sei o que lá. Eu vou pedir uma ressonância, eu vou conseguir ver exatamente como que tá sua coluna. Ou seja, você pode falar para mim que você não tá sentindo dor nenhuma, você pode falar para mim que você tá sentindo toda dor do mundo, mas tem uma coisa objetiva eu vou conseguir avaliar. Em saúde mental, a gente depende do relato do indivíduo que a gente está avaliando. E é importante da gente criar inicialmente um ambiente de confiança, de vínculo, para que essas informações consigam ser passadas.

E algumas pessoas falam:

ah, mas ele tá, ela tá sendo ardilosa, né, porque ela tá fazendo um ambiente que tá deixando ele confortável e ele vai lá e confessa algumas coisas que talvez ele não confessaria. Mas sim, isso faz parte de uma avaliação forense. Existe uma série de técnicas que a gente acaba utilizando na entrevista algumas até mais assertivas, de confrontar versões para poder entender e até para ver que tipo de reação aquilo vai provocar. Por exemplo, é muito importante aquela cena, por exemplo, que ele acaba se desregulando emocionalmente, levanta, tem uma atitude agressiva em relação a ela. Essas coisas são pensadas, essas coisas são pensadas no contexto de uma avaliação forense, que é muito diferente, que muitas pessoas estão acostumadas com uma avaliação clínica, e ali é uma avaliação forense. Então muitas informações que surgiram daquela avaliação são muito importantes, ou seja, a capacidade dele de se autorregular emocionalmente, que ele não tinha. Ou seja, ela vai perguntando algumas coisas a mais e ele se desregula e ele começa a ficar agressivo. Só que ao mesmo tempo tem uma questão que tem uma parte dele que tá desesperada por um contato humano, talvez um contato humano que ele não tenha tido em outros lugares da vida dele. Que eu lembro, me corrija se estiver errado agora, de memória, quando tá encerrando a entrevista, que ele pergunta para ela, né, se ela gostava dele, e ela fica quieta, e fica aquela situação meio estranha. Nossa, é, tem uma questão de técnica, tem uma questão de técnica, aí cada profissional faz de um jeito. Talvez, sei lá, eu, por exemplo, se eu tivesse de novo na situação mais injusta, né, porque eu não tava lá, e aí eu tô comentário, mas eu, por exemplo, poderia responder para o

paciente:

"Putz, eu me importo com você. O fato de eu estar aqui, apesar de eu não ser o seu terapeuta, o seu psiquiatra, eu me importo. Eu me importo com todo mundo que eu avalio. Então eu vou tentar fazer o máximo do meu trabalho para o seu bem-estar. É um prazer, né, você ter aberto esse espaço mental para eu poder entrar e poder analisar uma coisa muito íntima, e eu me importo." importa com todo mundo que eu tô avaliando, seja na clínica, seja numa avaliação forense. Mas também de uma maneira muito maestral, tem uma questão que ela é uma mulher, né? E muitos conteúdos que ele falou em relação a ela, até uma violência em relação a ela, isso afetou ela muito, né? Você vê que ela fica tocada, ela fica mexida. E isso é um treino que a gente precisa fazer ao longo da nossa formação, porque a gente muitas vezes é alvo realmente de uma série de sentimentos, uma série de frustrações e de raiva nesse tipo de avaliação, e que é muito difícil para a gente. Então a gente tem todo um treinamento, a gente precisa fazer terapia, a gente precisa fazer supervisão, a gente precisa— mas a gente brinca que a gente, o nosso instrumento de trabalho é a nossa personalidade. Então o cardiologista, ele vai lá, ele coloca o estetoscópio dele, a gente trabalha com a nossa personalidade, ou seja, a gente tá lá aberto para esse paciente, a gente eventualmente vai ser alvo de pancadas que esses pacientes vão dar na gente. Só que é importante para entender essa dinâmica. Poxa, se aqui nesse ambiente ele tá me batendo desse jeito, imagina como que seja lá fora. Imagina o bullying que ele sofreria lá fora com esse tipo de atitude. Isso é importante para a gente poder ter essa— mas é um tipo de avaliação super difícil, realmente. Ei, Doutor, última pergunta

que eu tenho é:

imagine alguém que tem sob sua guarda alguma criança ou adolescente e ficou muito preocupado, né, ao ver a série, com essa coisa, né, puta, eu acho que eu tô fazendo melhor, mas sempre pode acontecer, então deixa eu cercar de todos os lados, enfim, uma preocupação muito grande. O que que você diria para alguém que chega, chegasse assim numa condição meio abalada por ter assistido a série? Acho que uma uma resposta padrão, né? Procure os profissionais de saúde que eles vão te orientar. Mas eu acho que tem uma coisa muito bonita da nossa profissão que é comunicação. A gente, isso na vida, a gente faz vínculos com as pessoas com base na comunicação. Então refletir como será que tá a comunicação, por exemplo, com meu filho, com a minha filha, e às vezes de coisas básicas. Eu tô conversando com ele, o que que tá acontecendo na vida dele, do que que ele gosta, do que que ele não gosta de fazer? Porque muitas vezes a vida vai tomando um rumo e com trabalho, com um monte de coisas, e é absolutamente normal no curso da vida, mas a gente tem chance de retomar determinadas coisas. Putz, meu filho tá lá no quarto, a gente não tá se falando, mas o que que tá acontecendo? Por que que vocês não estão se falando? Vamos, tem alguma atividade que vocês gostam junto para fazer? A questão da comunicação. A gente, nós seres humanos, somos seres muito gregários. A gente precisa, nosso desenvolvimento está muito relacionado, e a gente se conecta com o mundo e se conecta com as pessoas por meio da comunicação.

Só de perguntar:

"Putz, como você tá se sentindo? Como foi seu dia hoje? O que está te incomodando?" Saber que não necessariamente vai ser uma coisa de uma conversa, vai precisar de uma série de conversas, mas estar disponível para o outro. Eu acho que essa é a palavra, acho que a capacidade que a gente tem de estar disponível para o outro, né? Às vezes a pessoa chega pra gente com um problema e às vezes a gente querendo ajudar, a gente está no afã de dar um monte

de situações, de soluções:

"Não, vamos fazer isso." E às

vezes a pessoa só quer desabafar, às vezes a pessoa só quer:

"Puts, que foda, que situação ruim, não tô vendo muito jeito de te ajudar, mas eu tô aqui pelo menos para te escutar, vamos te ouvir para ver o que..." E só de falar tem essa questão mágica que eu acho que é da nossa profissão, né, que a gente trabalha. Tem uma frase muito bonita agora, relembrando, que é uma frase que o Jung escreveu para o Freud numa das cartas, que ele fala que o motivo de existir o mal do mundo é que as pessoas não são capazes de contar sua história. E eu achei muito forte isso, né? Ou seja, a gente precisa ser capaz de contar nossa história com os nossos amigos, com os parceiros, na igreja, na faculdade, na escola, onde quer que seja. A gente precisa ser ouvido, a gente precisa ter essa sensação, e nada melhor do que nesse ambiente familiar. Então realmente Será que as pessoas estão sendo ouvidas realmente? E no caso do Jamie me chama atenção, eu acho que ele não foi ouvido. Eu acho que seja na escola, seja em casa, não é apontar culpas, mas é de que que a gente pode fazer diferente, sabe? Perfeito, Dr. Thiago. Eu sempre deixo um último espaço para pessoa falar o que quiser. Essa sua última fala Tinha muito essa cara, né, uma mensagem final. Ainda assim, como eu fiz uma pergunta meio direcionada, eu vou insistir e deixar um espaço totalmente livre, que geralmente é isso, né? Ah, deixa alguma coisa que talvez você tenha planejado abordar na entrevista e as perguntas não permitiram, algo que você acha importante, enfim, uma mensagem final mesmo para quem tá ouvindo a gente. Retomando toda a nossa conversa, né, e o quanto que eu gostei, né, da série, essa questão dessa sensibilidade. Essa questão de que não existem soluções simples, é um problema extremamente complexo, mas dando uma esperança, né, e pra gente terminar com uma mensagem positiva, as coisas podem ser diferentes. A gente vê esses episódios trágicos, essas situações trágicas, mas ao redor do mundo muito provavelmente vão ter vários adolescentes nesse momento que estão dentro do quarto, que estão deprimidos, ansiosos, que estão sendo vítimas de bullying. Reforçar essa questão da comunicação. Ou seja, de tentar entender nesse contexto familiar, as pessoas estão sendo ouvidas, as pessoas têm espaço para falar suas histórias, isso está sendo acolhido, isso está sendo ouvido. Pode parecer uma platitude, né, mas acho que essa questão da comunicação, né, todo mundo pensa, quando pensa no psiquiatra, pensa no remédio, pensa em todas as coisas, mas talvez o remédio mais poderoso que a gente tem é a palavra. Então a gente usar a palavra comunicação para a gente fazer conexões verdadeiras com as pessoas, isso tem um efeito inestimável. Na outra ponta, né, é bom tendo a palavra ter quem ouça, né, que é essa sua mensagem. Perfeito, Doutor Thiago, mais uma vez muito obrigado por ter feito essa conversa aqui com a gente. Tomara que tenhamos esclarecido muita coisa. Agradeço. E espero poder conversar com você de novo, que foi demais, sobre algum outro assunto. O aparte de hoje é psiquiatra e psicanalista Alfredo Simonetti, no Café Filosófico CPFL. Nós toleramos hoje muito pouco sofrimento, porque junto com a indústria farmacêutica são duas forças que criam o grande uso do remédio psiquiátrico e o novo paciente psiquiátrico, aquele que não é doente, mas que se vale do remédio. É a indústria e é a cultura da felicidade, que é a ideia que vocês acham que você tem direito à felicidade. E você não tem direito à felicidade. O que você tem direito é à busca da felicidade. O que você tem direito é direito às condições básicas da vida, né? De respeito, dignidade, saúde, estudo, oportunidades iguais, no caso homem e mulher, por exemplo. Mas dizer que você tem direito à felicidade, não. Só que no nosso imaginário é isso que a gente carrega. A gente acha, nem acha, nem é racional. Sinto que eu tenho direito à felicidade. E se eu estiver infeliz, Eu não vou processar ele, eu até tenho vontade de processar, mas quando eu paro um pouco, faço um pouco de terapia, percebo que não é o outro que vai me fazer feliz e tal, né? Eu chego à conclusão que se eu estou feliz, e já que não é o outro, porque isso é muito neurótico, muito superficial, achar que o outro vai me fazer feliz, já tenho anos de análise e descobri que não é. Então, se a falha não é no outro, está em mim. Sou eu que errei ao não ser feliz. Então você sofre duas vezes. Um, por estar infeliz, e o outro porque estou infeliz porque errei. Obrigado, pessoal, por terem ouvido mais esse episódio. Acho que o que fica pra pais, mães, qualquer pessoa que tenha sob sua responsabilidade alguma criança ou adolescente, é o que a gente falou aí por último, né? A série suscitou muitas preocupações sobre que sites oferecem risco, como que eu controlo o que meu filho vê na internet, o que significam os emojis. Mas na verdade todas essas questões retornam para uma questão anterior, que é como manter um canal de comunicação aberto, né, com as crianças e adolescentes. É isso, você se mostrar disponível para que elas se sintam seguras e confortáveis para nos acionar caso elas estejam passando por algum sofrimento, que muitas vezes é inerente a essa fase da vida. E a gente, se não se sentir preparado, estressado, não souber como conduzir aquilo, também a gente procurar profissionais de saúde mental, né? Esse aqui é o objetivo desde o início do nosso programa, é tirar esse estigma sobre a saúde mental e principalmente sobre procurar ajuda, que muitas vezes é baseada só num preconceito que precisa acabar. Obrigado, gente, até o próximo! O Entrementes é uma produção da Baioque Conteúdo. Tem roteiro e apresentação minhas, Luiz Fujita, edição da Amanda Hatzyrah, coordenação geral da Tainã Damião e trilha sonora do Paulo Garfunkel, nosso querido Magrão. Quem cuida das redes sociais é a Tainah Medeiros. Siga a gente no seu tocador de podcast favorito e dê sua avaliação, que as estrelinhas são muito importantes para nós. Se inscreva no canal no YouTube, que os episódios também vão para lá em vídeo. Siga também no Instagram,@entrementepodcast, e conversa com a gente por lá, pelos comentários ou por mensagem. Um grande abraço e até o próximo episódio.